Sonda-me

setembro 1, 2009

SANTA BEATRIZ – BIOGRAFIA

setembro 1, 2009

SANTA BEATRIZ

Ordem da Imaculada Conceição 

BIOGRAFIA

A família

“…educada num profundo espírito e virtudes cristãs.”

De nobilíssima família portuguesa, Beatriz da Silva e Menezes, nasceu na graciosa e ensolarada vila alentejana de Campo Maior, no ano de 1437. Filha de D. Rui Gomes da Silva, Alcaide Mor da já mencionada vila de Campo Maior e Ouguela e de Dona Isabel de Menezes, que era filha de D. Pedro de Menezes que foi Governador da Praça de Ceuta, nessa altura pertencente à coroa dos reis de Portugal. Os pais de Beatriz pertenciam à primeira nobreza e estavam ainda aparentados com a família real.

Tiveram 11 filhos, educados por franciscanos, que inculcaram no seu coração um profundo sentido cristão, ético e moral e uma especial amor à IMACULADA.

Campo Maior 

Campo Maior

A Princesa Isabel de Portugal, filha de D. Duarte, contrai núpcias com D. João II de Castela, e leva a sua prima Beatriz como dama. Era Beatriz muito nova e bela e de alma transparente e cristalina. Os ciúmes da Rainha chegaram ao desejo de a fazer desaparecer. Mas os desígnios de Deus são outros, e como do mal pode obter um bem, enquanto esta só e cerrada num cofre esperando a morte, aparece-lhe a Virgem Imaculada, Rainha de Portugal, a anunciar-lhe que seria mãe de muitas filhas e que fundasse uma Ordem dedicada ao serviço e louvor do mistério da sua Conceição Imaculada.  Sai da Corte e nos Palácios de Galiana, em Toledo funda a sua Ordem há mais de 500 anos.

Santa Beatriz da Silva

BEATRIZ É UMA GLÓRIA PARA A IGREJA!

BEATRIZ, UMA GLÓRIA DE PORTUGAL!

 

Beatriz continua sendo actual e uma mulher para os dias de hoje. Sua mensagem perdura  ante o mundo e os valores do Evangelho.

Beatriz passou a sua infância e adolescência nesta nobre vila, rodeada do carinho de seus pais que a educaram num profundo espírito e virtudes cristãs.

Foi a oitava de doze irmãos: Pedro, Fernando, Diogo, Afonso, João (Beato Amadeu da Silva, fundador do ramo franciscano dos frades Amadeus, hoje extinto), Branca, Guiomar, Beatriz, Maria, Leonor, Catarina e Mécia.

Na Corte

“…enchia de fervor com o seu exemplo”.

Para Beatriz decorria tranquila a vida no velho solar de Campo Maior. Totalmente entregue a Deus, tinha esquecido o mundo com toda a sua agitação, embora vivesse nele.

Mas o Senhor tinha-a criado para coisas maiores que esta vida calma, e, para isso, tinha de a fazer passar pelo crisol do sofrimento, como costuma sempre fazer com os eleitos do seu coração.

Quando chegou, Beatriz cujos predicados e virtudes raramente se vêm em humana criatura, deram motivo à rainha Dona Isabel, filha de D. Duarte, rei de Portugal, e esposa em segundas núpcias de D. João II de Castela para levar por sua dama, para a Corte, a jovem Beatriz, que era sua parente muito chegada. Primeiro para Lisboa e a quando do casamento com D. João II de Castela, para Tordesilhas. A virtuosa dama era o mimo, e todo o desvelo da rainha que não podia estar sem ela um só instante. Só a jovem dama conseguia moderar alguns dos excessos da temperamental rainha de Castela que, se enchia de fervor com o seu exemplo e, quando a via entre as Senhoras e Damas da Corte de Castela, tinha grande satisfação de que a sua portuguesa brilhasse, como a mais bela das rosa entre as flores, e resplandecesse, como lua entre as estrelas. Diz-nos uma biografa da Santa, que Beatriz “era formosíssima, prudente, afável, inteligente, composta e de muita gentileza”, e outro autor: “que era bela, maravilhosamente bela, até ao deslumbramento”.

***

O Ciúme

“…procurava viver em recolhimento, dando todo o seu amor e o maior tempo possível a Deus, o verdadeiro Senhor do seu coração.”

Costuma dizer-se que há males que vêm para bem, e vice-versa, que há bens que vêm para mal. E foi precisamente o caso de Beatriz. Porque a felicidade humana é inconstante e falível, não podiam durar por muito tempo os excessos de carinho e de atenção da rainha para com a jovem dama portuguesa.

A sua beleza, graciosidade e doçura, levou muitos nobres a pretendê-la para casar, aos quais, ela negou sempre a sua mão.

Mas, o facto mais doloroso, foi causado pelo ciúme da rainha que, chegou ao cúmulo de a fechar numa cofre, para que Beatriz ali morresse asfixiada. Tudo por ciúme, devido às atenções que o rei dava à jovem, que, de forma alguma, procurava atrair sobre si as atenções de quem quer que fosse, muito pelo contrário, procurava viver no recolhimento, dando assim todo o seu amor e o maior tempo possível ao Pai Eterno, o verdadeiro Senhor do seu coração.

***

A visão

“…a sua vocação: fundar uma Ordem com o fim de honrar a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria”.

Foi, porém, naquela prisão, que a Santa recebeu em plenitude o “Dom de Deus”, e lhe foi dada a conhecer a sua futura missão, a sua vocação: a de fundar uma Ordem, com o fim de honrar a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.

Nos três dias que permaneceu naquela escura prisão, apareceu-lhe a Santíssima Virgem com o menino nos braços. Trazia vestido um hábito todo branco e escapulário da mesma cor, e a cobri-la um manto azul.

Era vontade de Deus e de Maria que, Beatriz, fundasse uma Ordem destinada a defender e honrar o Mistério da Imaculada Conceição.

Santa Beatriz da Silva

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O inesperado

“…a rainha deu-lhe licença e liberdade para ir viver aonde mais fosse de sua vontade”.

O desaparecimento da jovem dama, provoca no seu tio D. João de Menezes (que também se encontrava na corte de Tordesilhas, ao serviço de D. João II de Castela), grande preocupação, até porque ele sabia do grande ciúme que a rainha nutria por Beatriz e temia o pior.

À pergunta de D. João de Meneses a Dona Isabel, sobre o paradeiro da sobrinha, a rainha respondeu-lhe «que viesse vê-la», e levou-o ao sítio onde a deixara encerrada, certa de que, ao abrir o cofre, a encontraria morta.

Viva a viu aparecer, e mais bela do que nunca! A rainha, pasmando do que tinha diante de si, não atinava que dizer – conta soror Catarina – e, assombrada duma coisa tão inesperada, não queria dar crédito aos seus próprios olhos, que viam o que naturalmente era impossível sucedesse.

Com este espanto, e, ao mesmo tempo, para se livrar da ocasião de voltar a criar problemas à dama Beatriz, a rainha deu-lhe licença e liberdade para ir viver aonde mais fosse de sua vontade.

Certamente que esta «experiência de encarceramento» foi, na vida de Beatriz, um marco importante que a levou a dar uma grande viragem no rumo da sua vida e a levou a abandonar a vida palaciana da corte de Tordesilhas e a retirar-se para Toledo.

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Em viagem

“Este encontro deixou-lhe na alma uma grande consolação e abriu-lhe o entendimento às realidades sobrenaturais”.

A viagem para Toledo foi longa, arriscada e muito difícil, o que revela a personalidade forte e decidida de Beatriz.

É significativo, o episódio que ocorreu durante a viagem e que, todos as biógrafos da santa, são unânimes em relatar.

“Foi o caso que, no caminho para Toledo, ao passar por um monte (Beatriz), viu sair de trás dele dois religiosos da Ordem do meu Padre S. Francisco, e, julgando fossem enviados da rainha a fim de a confessarem para que depois lhe fosse tirada a vida, entrou, em grande temor; e não foi muito, que assim fizesse, quem havia experimentado os arrojos do zeloso peito duma rainha. (…) Acercaram-se os religiosos, e, um deles, que por seu modo parecia português, saudando-a na sua língua materna, lhe perguntou a causa da sua aflição e pena”.

Depois de saberem dos temores da nobre viajante, tranquilizaram-na os dois frades e falaram-lhe da fundação da Ordem da Imaculada Conceição. E, assim, foram conversando durante a viagem para Toledo. Mas tal como os discípulos de Emaús, também os dois frades desapareceram aos olhos de Beatriz e da sua comitiva, quando esta insistiu com eles, para que partilhassem com ela a ceia na próxima pousada.

Este encontro deixou-lhe na alma uma grande consolação e abriu-lhe o entendimento às realidades sobrenaturais e compreendeu que os seus companheiros de viagem eram Santo António de Lisboa e São Francisco de Assis.

***

Em São Domingos “O Real”

“Florescia em todas as virtudes, era tida por santa e obrava milagres”.

Depois do sucedido e, com a autorização da rainha, Beatriz, retirou-se para a cidade de Toledo, onde viveu, voluntariamente, em completo encerramento, no Convento Dominicano de São Domingos O Real, ou O Antigo. Ali passou trinta longos anos, como senhora de piso, longe de tudo e de todos os seres queridos e totalmente desprendida das vaidades terrenas e desejos mundanos. E, como a formosura do seu rosto foi a causa de tantas discórdias na corte, cobriu o rosto com um véu branco durante o resto da sua vida, salvo em raríssimas excepções.

No mar, o navio é presa fácil do risco dos ventos, se, porém, chegar a um calmo e tranquilo porto, já não teme calamidades, mas está seguro. Também Beatriz, enquanto se encontrou no meio dos homens, contou com tribulações, riscos e embates contra a sua sensibilidade. Mas, ao chegar ao porto do silêncio, para ela preparado, não mais teve medo, e entrega-se toda nas mãos de Deus, confiando no Seu amor sem medida.

Não fazia parte das religiosas que compunham a comunidade, mas, ali vivia como uma delas, em completa vida de clausura. Como nos canta soror Catarina: Beatriz “Florescia em todas as virtudes e comia parcamente, que era tida por santa e obrava milagres, que se distinguiu sempre por sua humildade e obediência às superioras” do dito Convento de São Domingos O Real e a sua vida era verdadeiramente exemplar. Das rendas, que possuía, reservava uma moderada parte para o tratamento, e decência da sua pessoa, e, tudo o mais, o gastava em esmolas e

Deus. E só pela entrega total de si mesmo se entra neste caminho de perfeição e de união com Deus. Contudo, quem diz “entrega total”, diz “renúncia total”. Deus de todos espera o desapego completo de tudo o que não seja Ele. O mais pequeno vínculo impede a alma de levantar voo. Por isso, é urgente perder tudo, para ganhar O Tudo. É urgente entregar tudo o que temos e somos sem hesitação.

O mercador de pérolas do Evangelho, vendeu todos os seus bens para comprar a pérola mais fina que tivera a sorte de encontrar. Beatriz, por sua vez, renunciou à sua luminosa beleza, à sua posição social, à sua fortuna e à possibilidade de fazer um casamento invejável, aos olhos do mundo, para se fechar num Convento, onde nem sequer era freira. Assim, sem vínculo nenhum, poderia levantar voo e voar na imensidão do amor de Deus e saciar a sua sede na fonte da Água Viva. Preparando-se desta forma, para a Obra a que fora destinada pela Imaculada.

Convento de São Domingos O Real

***

A espera

“…mantinha-se simplesmente à escuta do que Deus lhe ordenava”.

A nós, que vemos os acontecimentos no seu aspecto meramente exterior, sem muitas vezes, poderem apreender-se as realidades profundas que essas aparências encobrem, parecerá incompreensível esta demora tão grande em realizar planos que se sabia serem divinos. Que significavam tantos anos de aparente inacção, segundo os nossos juízos? Que fazia Beatriz da Silva e Meneses em São Domingos O Real, onde, nem sequer era religiosa? Porque esperava?

Ora, tais circunstâncias, levam-nos a crer que ela se mantinha simplesmente à escuta do que Deus lhe ordenava. Ia-se exercitando na conquista de uma das virtudes mais difíceis de praticar quando se deseja um bem que tarde em vir; a paciência, na perfeita conformidade com a Vontade de Deus.

“Poucas vezes uma fundadora terá sido preparada tão profunda e prolongadamente para a sua missão carismática”

Quando ela atingiu o grau de perfeição na virtude requerido para empreendimento tão sublime, corria o ano de 1484, recebeu então a ordem aguardada durante trinta longos anos entre os muros de São Domingos “O Real”. E logo se seguiu um período de intensa actividade, a esses longos anos vividos na obscuridade e no silêncio do claustro.

***

Os preparativos

“Com a sua admirável generosidade, passou a dar-se sem reservas, ao cumprimento da missão que Deus lhe confiava”.

Dizem os biógrafos da Santa fundadora, que lhe apareceu outra vez a Mãe de Deus, tornando a mostrar-lhe como haveria de ser o hábito que trariam vestido as suas religiosas, pois, já o havia feito, a quando da visão no cofre em Tordesilhas, e, ainda, para lhe dizer que tinha chegado o tempo de pôr mãos à realização da Obra. Tinha soado a hora para a qual Beatriz da Silva orientara o curso de toda a sua vida, na qual concentrara todos os seus esforços e, para a qual, dirigira todas as suas aspirações. Urgia, agora, dedicar à realização da sua Obra todas as forças e o tempo que lhe restava viver na terra.

Com a sua admirável generosidade, passou a dar-se sem reservas, ao cumprimento da missão que Deus lhe confiava. Finalmente, o sonho que iluminara toda a sua vida, o desejo que o seu coração acalentava de espalhar pelo mundo a devoção à Imaculada Conceição, e honrar através da sua futura Ordem, este mistério tão grande e tão sublime, começava a realizar-se e a criar forma.

***

A fundação

“Terão como carisma próprio o da Imaculada Conceição”.

Ajudada pela rainha Isabel “a Católica”, que lhe deu os palácios chamados de Galiana, por terem outrora pertencido à princesa Galiana, filha de um rei mouro que os mandara construir propositadamente para esta sua filha, bem como a Igreja de Santa Fé, situada junto ao Palácio de Galiana. Beatriz deixa o Convento de São Domingos O Real, onde viveu 30 longos anos, para se instalar com mais doze donzelas de muita virtude e nobreza, no local que a rainha lhes oferecera. Entrou com grande alegria nessa casa tão desacomodada e, logo, deu ordens para que se fizessem as obras necessárias e conveniente para a transformar num Convento de religiosas contemplativas de clausura, começando por arranjar a Igreja. Tanto que, logo que se instalaram no seu Convento de Santa Fé, e, provido este, do essencial para a vida comunitária contemplativa, ordenou a santa fundadora o modo de viver que haviam de guardar ela e suas filhas e, composta a Regra, a enviar ao Sumo Pontífice Inocêncio VIII com petição da rainha Isabel “a Católica” para que Sua Santidade aprovasse esta Ordem com o título da Imaculada Conceição, bem como a Regra, o modo de rezar e de vestir (o hábito).

Foi, por meio de um «estranho» mensageiro, que a fundadora soube que, Roma tinha expedido a Bula de aprovação da Ordem. Contudo, mais tarde, chega a notícia de que o navio que transportava a Bula de aprovação, tinha naufragado. Beatriz comunicou o facto à rainha, e só teve uma ideia: pôr-se a rezar. Ao fim de três dias, aparece a Bula num cofre do Convento. Como aconteceu este «prodígio»? A verdade é que, hoje, a dita Bula se encontra no Convento de Toledo. Inocêncio VIII tinha dito sim ao pedido de Beatriz, com o apoio da rainha Católica. Estava a Bula dirigida ao bispo de Coria e Catânia, e ao Vigário de Toledo, para «executar a Bula» em 1491. A Bula papal cita expressamente a rainha Isabel e soror Beatriz, a quem autoriza a fundar um Convento, de clausura. Segundo palavras de Sua Santidade: Nos foi humildemente suplicado que se dignasse a Nossa Benignidade Apostólica erigir na referida casa um Mosteiro de Monjas, sob a invocação da Imaculada Conceição. Beatriz gozaria da dignidade de Abadessa, e a casa teria campanário, dormitório, refeitório, hortas e outras oficinas, na qual vivam as religiosas em comunidade sob a regular observância e perpétua clausura. E dá poder à Abadessa para que possa formar estatutos e ordenanças. Vestirão de branco, com manto cor (azul) celeste, e, «no manto e escapulário, tragam fixa a imagem da Virgem Maria, e se cinjam com uma corda de cânhamo, à maneira dos Frades Menores». Terão como carisma próprio o da Imaculada Conceição. A Bula «Inter Universa» está datada de 30 de Abril de 1489, quinto ano do Pontificado de Inocêncio VIII. É esta, certamente, a autorização solene, oficial e pontifícia para a Fundação.

E, finalmente, no antigo palácio, de uma princesa moura, tem o seu berço a Ordem da Imaculada Conceição, melhor dizendo, começam a escrever-se com letras de luz, silêncio e oração as glórias da Imaculada Conceição.

***

A passagem

“…no ocaso da vida tudo passa, só Deus fica e o que por Ele tivermos feito”.

Seis anos passaram estas almas desejosas de uma entrega radical, à espera que lhes chegasse a aprovação de Roma. Quando esta, finalmente chega, a Obra começa a desenvolver-se em pleno. No entanto, um novo sacrifício lhes estava reservado.

Tinha já sido marcada pelo Bispo de Toledo, a festa das profissões, de Beatriz e das suas doze companheiras, quando a Santíssima Virgem de novo lhe aparece dizendo-lhe: – “Dentro de dez dias virei buscar-te porque não é vontade de Meu Filho que gozes aqui na terra o que tanto desejastes”.

Duro golpe difícil de compreender, mas que Beatriz aceita com o coração em festa, como através de toda a sua vida aceitou sempre qualquer manifestação da Vontade do Pai Eterno. E nisto consistiu precisamente o segredo de toda a sua santidade, pois, só no cumprimento da vontade de Deus, reside o segredo da santificação de qualquer alma. Fora desta vontade não há santificação possível.

Efectivamente, no dia preciso em que estava marcada a festa do início da Ordem, Beatriz voou para o Céu, tendo, antes, recebido o hábito branco e azul, como a Senhora lhe tinha indicado, e feito nas mãos de um sacerdote Franciscano, a sua Profissão Religiosa. Morria assim, como uma verdadeira Concepcionista. A noite da sua vida passara. Tinha sido uma noite de lutas e sofrimentos em que venceu, é certo, mas que, para isso, teve de lutar denodadamente. Tudo agora findava, melhor, tudo agora começava, e morria feliz, pois, como diz o autor, “no ocaso da vida tudo passa, só Deus fica e o que por Ele tivermos feito”. É que, na eternidade seremos julgados, não tanto pelo muito que fizemos ou possuímos, mas pelo muito que amámos. E Beatriz viveu uma vida intensa de amor e de entrega total a Deus.

***

A estrela

“…do seu rosto saiam raios de luz e uma estrela luminosa fixou-se-lhe na testa e ali permaneceu até que soltou o último suspiro”.

No momento da sua morte há um pormenor que não pode ser esquecido. Desde que saíra da Corte de Tordesilhas, Beatriz cobria o seu belíssimo rosto com um véu branco a fim de ocultar, aos olhos de todos, a sua grande beleza que fora causa de tantos desgostos e dissabores. E, assim, viveu os cerca de trinta anos que durou a sua vida retirada no Convento de S. Domingos “O Real”, e depois já no seu Convento definitivo.

No momento derradeiro, ao levantarem-lhe o véu para lhe ser administrado o sacramento da Unção dos Enfermos, todos viram, com assombro, que, do seu rosto, saiam raios de luz que iluminaram todo o aposento em que se encontravam, e uma estrela luminosa fixou-se-lhe na testa e ali permaneceu até que soltou o último suspiro. E é este o motivo pelo que a imagem da santa de Campo Maior se representa com uma estrela na fronte. Esta significa, certamente, a luz que ela irradiou então e que continua, ainda hoje, a irradiar ao longo destes cinco séculos que nos separam já da sua morte, ocorrida em Toledo no dia 9 de Agosto de 1492.

Luz que brota do testemunho de vida de Beatriz, que “…toda se abandonou à vida de santidade…” e das suas filhas, que encerradas nos seus Conventos seguem as pisadas da sua mãe e mestra, vivendo os rigores do evangelho.

***

Depois da morte

“…todas viviam unidas, «num só coração e numa só alma»”.

Como nos conta Soror Catarina: “Logo que a serva de Deus expirou pensaram as religiosas de São Domingos levar para o seu Convento, não só as doze religiosas, porque não haviam professado e ficavam sem Madre, senão também o venerável corpo da Fundadora, porque, tendo vivido tantos anos com elas, julgavam que lhes pertencia; e, nesta ideia, começaram a fazer diligências, levando em seu auxílio alguns religiosos da sua Ordem para conseguirem levar a cabo a sua empresa, e, por conseguinte, para que a casa e Ordem da Imaculada Conceição ficasse desfeita. Não era porém essa a vontade do Senhor, que constantemente velava pelas suas servas; e não queria que desaparecessem de sobre a terra; e, por isso, mais uma vez as ilustrou com um novo milagre, como foi o aparecimento da Santa Fundadora a frei João de Tolosa.”

Antes, mesmo, da chegada de frei João de Tolosa já os religiosos franciscanos de Toledo haviam impedido que o corpo de Beatriz da Silva fosse levado pelas religiosas de São Domingos “O Real” e o sepultaram na Igreja de Santa Fé, junto às suas filhas.

Contudo, as religiosas de São Domingos não desarmaram e, visto que, não tinham conseguido os restos mortais da fundadora, pelo menos, achavam-se no direito de reclamar para si as doze jovens que faziam parte da comunidade de Beatriz, argumentando que estas ainda não tinham tomado hábito nem feito votos.

Foi, neste contexto, que frei João de Tolosa veio encontrar as jovens discípulas de Beatriz da Silva. Imediatamente este ilustre franciscano fez desistir dos seus intentos as religiosas de São Domingos “O Real” e marcou, para dentro de oito dias, a tomada de hábito e a profissão religiosa das doze valorosas filhas de Beatriz. Tendo sido nomeada para Abadessa soror Filipa da Silva, sobrinha da fundadora.

Contudo, não ficaram por aqui as dificuldades por que teve de passar a jovem comunidade Concepcionista.

As religiosas Beneditinas do Mosteiro de São Pedro das Donas haviam decaído um pouco no fervor primitivo da sua Ordem. Por isso, o Reformador Geral de todas as Ordens no Reino de Castela, frei Francisco de Cisneros, ordenou que o Convento de Santa Fé e o Mosteiro de São Pedro das Donas se juntassem num só. Passando as religiosas de Santa Fé a viver no Mosteiro de São Pedro das Donas. Por outro lado, por breve do Papa Alexandre VI as monjas das Donas passavam a vestir o hábito da Ordem da Imaculada Conceição e adoptavam a forma de viver desta jovem Ordem. E ainda, deveria a Abadessa de São Pedro das Donas renunciar ao seu cargo em favor de Madre Filipa da Silva que passaria a ser a Abadessa da nova comunidade.

No entanto, as mudanças não foram fáceis, pois, graves divisões surgiram na comunidade, que, por três vezes, esteve à beira da extinção, devido às reforma implantadas por Madre Filipa da Silva e que, desagradaram muito às antigas religiosas de São Pedro por não aceitarem que uma Ordem mais nova, viesse impor a uma Ordem mais antiga correcções e tradições.

A tal ponto chegou a situação que, frei Francisco de Cisneros, à data, arcebispo de Toledo, esteve a ponto de ordenar se extinguisse de vez a Ordem da Imaculada Conceição. Não era esse, no entanto, o projecto de Deus que levou o ilustre prelado a fazer uma última tentativa para repor a unidade e a caridade no referido Convento. Para isso, dirigiu às religiosas do dito Convento, uma veemente exortação a que se apaziguassem. Conta-nos Soror Catarina que o arcebispo lhes falou com tão inspirado afecto que lhes abriu o coração e os pacificou de tal maneira que, as que haviam abandonado a comunidade, voltaram bastante emendadas, conformando-se todas numa só vontade e amor, transformando-se o Convento num autentico paraíso.

E dava gosto, depois, ver o Convento da Imaculada Conceição, onde todas viviam unidas, “num só coração e numa só alma”.

Depois destas duras provas, a Ordem da Imaculada Conceição entra num período de grande florescimento, tornando-se numa das maiores Ordens Religiosas femininas de vida contemplativa, da Igreja.

Santa Beatriz da Silva

***

A glorificação

“…a Igreja sente necessidade e alegria em nos dizer que Beatriz da Silva, é Santa”.

Ao longo da história, Deus suscita homens e mulheres que, compreendendo o único Absoluto, e que foram capazes de assumir atitudes de vida que, ainda hoje, têm lições de vida e de sabedoria. A vivência do Evangelho continua a gerar verdadeiros sábios em todas as épocas, que, com os seus exemplos e palavras, possuem uma força de persuasão que não vem dos livros, mas do Espírito Santo.

Inteiramente abandonados à acção de Deus, os santos deixam-se conduzir pelo Espírito Santo por caminhos desconhecidos, até ao dom total de si mesmos. E foi o que aconteceu com Beatriz da Silva e Menezes, por isso mesmo, a Igreja sente necessidade e alegria em nos dizer que, fundadora da Ordem da Imaculada Conceição, faz parte deste grupo de obras-primas da criatividade do Espírito Santo e que nunca se repetem, que são os Santos. E fá-lo oficialmente, quando o Papa Pio XI a 28 de Julho de 1926 a beatifica e a 3 de Outubro de 1976, o papa Paulo VI a canoniza.

Canonização

Fim.

 

 Oração:

Lembrai-vos ó Santa Beatriz da Silva, das muitas angústias e tribulações pelas quais passastes nesta vida e intercedei por nós.

Ó Santa Beatriz, virgem singularmente amada de Maria Imaculada, alcançai-nos a pureza da alma e do corpo, com a graça que ardentemente vos suplicamos.

Amém.

 

CALDEIRA, P. Marcelino

Fonte: http://santabeatrizdasilva.com/santa-beatriz/biografia/

 

 

 

 


A CONFISSÃO: CONFESSAI-VOS BEM – Parte II.

setembro 1, 2009

confissão

O SACRAMENTO DA CONFISSÃO.

CONFESSAI-VOS BEM !!!

Parte II.

       2. O funestíssimo “por quê”

D. — Diga-me, Padre; qual será o primeiro “por quê” de tantas confissões mal feitas?

M. — Os “por quês” podem ser diversos, mas o principal é sem dúvida “o medo”, ou seja a maldita vergonha pela qual o demônio fecha a boca de muitos, fazendo-os calar ou confessar mal certos pecados ou o número deles. Você sabe como é que o demônio age quando quer induzir alguém ao pecado? Cerca o infeliz de mil maneiras, vai-lhe sugerindo:

“— Ora, cometa à vontade esse pecado… Afinal não é assim tão grave. Deus é bom… Ele não o quer castigar… Depois, com uma confissão Ele o perdoa e esta tudo acabado…” E assim, batendo hoje, batendo amanhã, e sempre na mesma tecla, o demônio acaba triunfando, ou seja fazendo cometer e talvez até repetir os pecados. Depois, então, quando o coitado, roído pelo remorso, resolve confessar-se, o demônio muda de tática. Novamente trata de impedir que Deus tome conta dessa alma, dizendo:

— “Como ousas confessar esse pecado? O confessor ficará surpreendido, há de ralhar contigo, levá-lo-á a mal e é provável que te negue a absolvição. Ora, vamos, não temas, confessar-te-ás depois… Há tempo de sobra… Há sempre tempo para isso.

— E assim o mais das vezes fecha a boca de quem estaria quase resolvido a falar e induz os pobres infelizes a se calarem e a cometerem

confissao 1

“Como ousas confessar esse pecado?”

D. — É esta mesmo a tática do demônio?

M. — Certamente! Ele mesmo o confessou a Santo Antonino, arcebispo de Florença. Um dia, tendo o santo visto o demônio junto do confessionário, perguntou-lhe:

O quê fazes aí?

Estou esperando para fazer a restituição.

Qual restituição? Fala, ou ai de ti.

Venho restituir aos pecadores a vergonha e o medo que lhes roubei quando os fiz cometer os pecados. .

D. — Se não me engano, parece-me que li que D. Bosco também viu o demônio em circunstâncias análogas.

M. — Justamente! E ouça como foi:

Certa noite, estava o santo confessando no coro da Igreja de São Francisco de Sales em Turim; era grande o número de jovens ali reunidos, esperando que chegasse a sua vez. Pelo confessionário passam dez, passam vinte, e chega finalmente um que, tendo já feito uma parte da confissão, pára de repente.

— Continue, diz-lhe D. Bosco, que por inspiração divina lia na consciência dos seus filhos.

— Continue! E o resto?

— Não há mais nada, Padre, mais nada!

Não temas, meu filho, continua o Santo, o Confessor não ralha, não castiga, perdoa sempre, perdoa sempre, perdoa tudo em nome de Deus; tem coragem… confessa-te bem…

— Não há mais nada! Nada mais!…

Mas por que, meu filho, queres, com uma confissão sacrílega, dar prazer ao demônio… causar tristeza a Jesus, fazê-lo chorar?

— Garanto-lhe Padre, que não tenho mais nada a dizer!

D. Bosco que vê o perigo que o infeliz jovem corre, inspirado por Deus, abandona a luta inútil e diz:

— Pois bem, olha quem está atrás de ti!

O rapaz vira-se de repente, solta um grito agudo e, agarrando-se ao pescoço de D. Bosco exclama:

— Sim Padre, eu tenho mais este pecado…

E conta o pecado que não ousava confessar… Os companheiros que estavam na igreja ouviram o grito; assim que saíram, cercaram o rapaz, e, curiosos, queriam saber o que tinha acontecido. E ele sorrindo, apesar de estar ainda um tanto assustado:

Se vocês soubessem… Eu tinha cometido uma falta que não ousava confessar. D. Bosco leu meu coração… e eu vi o demônio que, sob a figura de um gorila de olhos de fogo e garras afiadas, estava pronto para me agarrar!

D. — D. Bosco era um Santo! Que sorte confessar com um Santo; não é, Padre?

M. — Todos os confessores representam Jesus Cristo e Jesus Cristo é sempre Santo; Ele tudo sabe, Ele vê tudo, tem pena de todos, perdoa tudo!

D. — Mas mesmo assim o demônio procura enganar e trair nas confissões?

M. — Justamente; em todas as ocasiões. Assim como o lobo agarra as ovelhas pela garganta para que não gritem, e as carrega e as devora, assim também faz o demônio com certas almas; agarra-as pela garganta afim de que não confessem os pecados e as arrasta miseravelmente para o inferno.

D. — Que espertalhão malvado! Mas haverá quem, depois de enganado uma vez, se deixe levar por esse impostor?

M. — Há muitos, muitíssimos, infelizmente! Ai daquele que começa a seguir por esse caminho! São geralmente os que cometem pecados contra a pureza que enveredam por tal caminho!

Geralmente não há dificuldade em confessar os pecados contra a fé, os pecados de blasfêmias, os de profanação dos dias festivos, os de desobediência, de vingança e mesmo os de furto; mas quando se trata de acusar pecados de impureza, ou ter que acrescentar certas circunstâncias que os acompanharam, ou ainda quando se trata de dizer o número bastante considerável dessas faltas, então uma maldita vergonha surge e fecha sacrilegamente a boca do penitente.

De mais a mais, a confissão sacrílega geralmente não fica sozinha. Depois de uma vem outras e assim essas almas infelizes continuam durante anos e anos, e além disso acrescentam a essas confissões mal feitas outras tantas Comunhões sacrílegas. E não raro, acontece que aqueles que, tendo começado a esconder pecados graves desde as primeiras confissões, chegam a uma idade avançada sem nunca fazerem uma boa confissão e sem nunca repararem a desordem de suas almas.

É inacreditável, nota o Padre da Bérgamo, é inacreditável como o medo e a vergonha são comuns principalmente entre os moços. Daí vem o hábito de continuar a calar os pecados para não sofrer a humilhação, o sacrifício de confessá-los. S. Leonardo afirma ter tido a seus pés pessoas que, mesmo em perigo de morte não puderam vencer a vergonha que lhes fechava a boca.

S. Afonso recomenda aos padres que falem freqüentemente nos seus sermões com calor, com insistência, sobre esse perigo da vergonha que faz calar e insiste para que façam ver ao povo como as confissões mal feitas arruínam as almas, porque essa praga das confissões sacrílegas reina por toda a parte, principalmente nos lugarejos. E, como é comum que fatos e exemplos impressionem o povo, sugere aos padres que contem muitos exemplos de almas que se perderam por causa de pecados não confessados.

D. — Conte alguns, Padre!

M. — Com muito prazer!

Conta-se que uma menina de sete anos tinha tido a infelicidade de cometer certos atos impuros. Envergonhada, não ousou confessá-los na ocasião e nem mais tarde. Tendo adoecido gravemente, chamou o confessor, recebeu o Santo Viático, a Extrema-Unção e morreu! Todos, mãe, irmãs, e amigas lamentaram a sua perda, mas era para elas um conforto julgá-la salva e santa.

Porém, três dias depois do enterro, quando o Sacerdote se aproximava do altar para celebrar em sufrágio de sua alma, sentiu que o seguravam pelo braço, e uma voz triste e comovente lhe dizia baixinho:

Padre, não reze por mim porque eu estou condenada! Condenada por certos pecados que ocultei na confissão desde os sete anos.

Uma outra menina de 13 anos na ocasião da Páscoa tinha comungado junto com as companheiras: mas eis que, logo depois de recebida a santa partícula tem um estremecimento, contorce-se e cai por terra. Os presentes acodem assustados e a carregam para uma casa vizinha. Acabada a função, o Vigário se apressa a correr à cabeceira da menina que continua a delirar e debater-se; chama-a pelo nome e diz-lhe:

— Coragem, confia tudo a Jesus, àquele Jesus que recebeste na Comunhão! Ouvindo essas palavras, ela arregala os olhos e, horrorizada exclama:

A Jesus?!… A Jesus?! Ah não! Eu o recebi mal, eu cometi um sacrilégio escondendo certos pecados na confissão.

— E, continuando a debater-se, expira pouco depois diante dos presentes comovidos e penalizados.

M. — O quê me diz desses exemplos?

D.Digo que são terríveis e bastante para demonstrar como é grande o mal das confissões mal feitas.

M. — Não estranhe, portanto a nossa insistência sobre a sinceridade requerida para as confissões. Eu, que, desde os primeiros anos de Sacerdócio, por graça de Deus, tive a sorte de começar a catequizar e a pregar para jovens e adultos e continuo ainda hoje a exercitar-me nesta obra consoladora e frutuosíssima, nunca perdi o hábito de falar freqüentemente sobre a necessidade da confissão sincera e posso dizer que nunca me arrependi.

Ah! quantos jovens e adultos eu consolei, reconduzi ao bom caminho; quantos eu salvei nos Exercícios Espirituais, nas Missões e mesmo nas simples conferências e palestras!

D. — Tem razão, Padre; de fato, nenhum sermão é ouvido de tão boa vontade como os que versam sobre a confissão.

3. Ai daquele que começa.

D. — Padre, se é assim tão fácil encontrar quem se deixe enganar pelo demônio e se cala, renovando o sacrilégio na confissão por quê é que os sacerdotes e os confessores não indagam, não interrogam os penitentes para impedir as confissões mal feitas?

M. — Coitados dos sacerdotes e dos confessores! Infelizmente eles sabem e vêm que algumas almas deixam muito a desejar, mas em geral receiam ser indiscretos interrogando e esclarecendo certas coisas. Até pelo contrário, com certas pessoas, não ousamos, parece-nos imprudência interrogar.

Um pai ou uma mãe gostam de fazer sempre bom juízo dos seus filhos, e ficam penalizados quando têm que duvidar da sua conduta, da sua sinceridade, da sua inocência. Do mesmo modo sente o pobre sacerdote no que diz respeito aos próprios filhos espirituais e penitentes.

D. — E então?

M. — E então, continua-se em tal vida até que Deus intervenha com a sua mão providencial.

Eis porque por ocasião dos Exercícios Espirituais, das Missões, da Páscoa e de outras tantas festividades do mesmo gênero encontram-se muitas almas, as quais, tendo tido a desgraça enorme de calar uma vez certos pecados na confissão e continuaram depois com sacrilégios durante anos e anos até o dia em que, tocados por graça especial, podem finalmente abrir os olhos e tranqüilizar a consciência por tanto tempo torturada pelo remorso.

Pregavam-se os Exercícios em uma paróquia do Piemonte. Havia já alguns dias que tinham começado as confissões e desde o princípio eu notara uma pessoa de aspecto triste e indizivelmente constrangida que rondava o confessionário. Não fazia, porém, muito caso disso, quando eis que uma noite ela caiu aos meus pés e disse:

— Padre, ajudai-me; eu sou uma infeliz. Há quinze anos que eu me confesso mal; só fui capaz de cometer sacrilégios… e desatou em pranto.

— Pois bem, cria coragem, eu respondi, Deus será misericordioso; para a senhora também Jesus será infinitamente bom. Diga-me: quantos anos tem? Como é que enveredou por esse caminho?

— Tenho vinte e sete anos; quando tinha doze apenas, por causa de uma curiosidade ilícita eu cometi um pecado que não ousei confessar. Com tal sacrilégio, aproximei-me da mesa da Comunhão e, desde aquele dia até hoje os pecados e sacrilégios sucederam-se uns aos outros. Rezei muito, chorei muito, fiz romarias mas tudo em vão! Confessava-me todos os meses e até com mais freqüência por ocasião dos Exercícios Espirituais; repetia as confissões gerais mas esses pecados eu sempre os escondi, por pura vergonha.

— E a senhora estava satisfeita com as suas Confissões: Comungava tranquilamente?

— Oh, Padre! se soubésseis como os remorsos amargos atormentavam o meu coração, cravando-se nele como espinhos agudos!

— Mas então por quê continuava sempre do mesmo modo?

Porque fui uma tola, eis tudo… Um medo indizível das reprimendas do confessor fechava-me a boca e um exagerado respeito humano das minhas companheiras arrastava-me para a Comunhão nesse estado.

— Há quanto tempo confessou-se pela ultima vez?

— Ah! Padre! confessei-me já três vezes durante esta Missão, com três confessores diferentes, sempre com o firme propósito de acabar com isto de uma vez por todas e dizer tudo. Mas, chegando ao ponto terrível, sentia um nó cruel que me apertava a garganta e assim calava-me.

— E agora, como conseguiu manifestar-se?

Padre, o vosso sermão de hoje sobre a necessidade absoluta da confissão bem feita, aquelas palavras tantas vezes repetidas “experimentem e verão o quanto Jesus é bom”, comoveram-me e foi então que decidi falar, custasse o que custasse.

Ajudada pelo confessor ela fez uma confissão geral das mais consoladoras, tendo recebido a absolvição, não parava de repetir:

— Agora chega, Padre, chega de pecados e sacrilégios. Direi a todos que experimentei e que vi como Jesus é bom!…

D. — São fatos que consolam, não é Padre?… E ainda bem que reconhecem suas faltas!

M.Mas quantos não as reconhecem mesmo em ponto de morte! É uma coisa muito triste, mas infelizmente verdadeira; não raro há moribundos que às portas da morte, teimam em esconder os pecados não confessados ou mal confessados desde a juventude, nesse estado deplorável passam para a eternidade.

confissao3

“Tirem da minha frente este Cristo, não preciso dele!”

D. — Coitados!

M. — Pode chamá-los desgraçados! Ai de quem começa.

D. — Mas a misericórdia infinita de Deus não vem em auxílio?

M. — Você pode supor que Deus queira sempre, na hora da morte, usar de misericórdia com quem durante toda a vida abusando dessa misericórdia, injuriou-O com sacrilégios? E além disso na maioria dos casos, nem invocam essa misericórdia; pelo contrário, muitas vezes a desprezam. Aqui também quero persuadi-lo com fatos.

O Padre dal Rio conta que uma jovem empregada se confessava freqüentemente, pois que a patroa exigia, mas por vergonha e teimosia calava os pecados desonestos. Uma ocasião ela caiu gravemente enferma; sempre por causa da solicitude da patroa, confessou-se, e mais de uma vez, sacrílegamente. Depois que a curaram com muitos cuidados, chegava até a caçoar com as amigas pondo em ridículo o zelo da patroa e do confessor para induzi-la a fazer uma boa confissão.

Tendo adoecido pela segunda vez e mais gravemente do que da primeira, a patroa tornou a chamar o sacerdote o qual acudiu com presteza. Com toda a piedade e paciência que Deus concede em casos análogos, o padre procurou induzir a infeliz a uma sincera e dolorosa confissão. Mas tudo em vão! Sempre teimosa, perseverou durante a longa agonia no propósito de se esquivar e de se calar, recusando-se até a repetir a jaculatória e as invocações sugeridas pelo confessor; mostrava-se aborrecida com tudo aquilo e com a presença do Padre.

E, quando por fim vendo que chegava o momento da morte, o sacerdote lhe pediu que beijasse o crucifixo, ela com um esforço supremo o afastou com maus modos e olhando-o com desprezo disse:

—Tirem da minha frente este Cristo, não preciso dele!

— E voltou-se para o outro lado; assim com um suspiro horrível expirou aquela alma impenitente e sacrílega. Ai daquele que começa!

O Padre Agostinho de Fusignano conta-nos um fato análogo, que se deu na sua presença. Uma mulher infeliz escondia na confissão os pecados mais graves. Apesar dos sermões ouvidos contra essa vergonha sacrílega, apesar das mais amorosas exortações, apesar do mais agudo remorso da consciência ela não soube aproveitá-los. Cansada a misericórdia de Deus de esperar, feriu-a com uma doença violenta que a pos em ponto de morte. O confessor foi chamado prontamente, mas a infeliz assim que o viu, exclamou:

— Padre, chegastes a tempo para ver uma mentirosa penitente ir para o inferno. Eu me confessava com freqüência, mas deixava sempre os pecados mais graves.

— Pois bem, confesse-os agora, respondeu o confessor.

— Não posso, não posso, gritou desesperada a infeliz. O tempo da misericórdia já passou; é chegado o momento da justiça!

E, delirando e contorcendo-se raivosamente, expirou, deixando em todos os presentes a mais triste e horrível impressão. Aqui também não será demais repetir: Ai daquele que começa!

Santo Afonso conta o caso de um senhor cuja conduta era aparentemente boa; fazia, porém, más confissões. Tendo adoecido gravemente, foi visitado pelo Vigário o qual suplicou-lhe que recebesse os sacramentos pois estava em perigo de vida. Mas o enfermo recusava-se a confessar.

— E por que meu caro senhor não quer confessar-se? Ah! respondeu o doente, é porque estou condenado! E Deus, para castigar os meus sacrilégios, tira-me a vontade e a força de repará-los.

Dito isto, começou a morder a língua, a debater-se desesperadamente, gritando: “Maldita língua, maldito silêncio, malditos sacrilégios”. Não foi possível convencê-lo, até que miseravelmente morreu.

D. — Chega Padre! São coisas que arrepiam a gente. Eu por mim não quero cometer sacrilégios.

M. — Mantenha essa santa resolução. Por que deixar-se dominar pelo demônio mudo, pisar o Sangue de Jesus Cristo, mudar o remédio em veneno e obrigá-lo a nos condenar, quando pelo contrário, Ele quer a nossa salvação?

Fonte: http://www.derradeirasgracas.com/3.%20Vários%20Assuntos/CONFESSAI%20VOS%20BEM/Confessai-vos%20bem%20%20-%20Parte%20II..htm