padre marcelo basta querer

dezembro 2, 2009
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LITURGIA GERAL: Artigo I – Ciclo de natal – FESTA DO NATAL

dezembro 2, 2009

LITURGIA GERAL

CAPITULO IV.

O TEMPO SACRO

Artigo I. Ciclo de natal

§ 68. FESTA DO NATAL

De beleza e encanto admirável são as festas da igreja e merecem ser tratadas com esmerado cuidado. Com razão diz S. João Crisóstomo (In s. bapt. Salvat. MG 49 p. 365): “Muitos celebram as festas e conhecem os seus nomes, mas ignoram a sua origem histórica e ocasional. Merece isto a censura de proceder muito vergonhoso e ridículo.”

1. O centro do ciclo do natal é a festa do nascimento de N. S. Jesus Cristo junto com a epifania, na qual antigamente, por algum tempo, foi comemorado o dia natalício do Redentor.

275.   Nenhuma festa do natal era conhecida nos 3 primeiros séculos. Concluímos este fato do silêncio dos escritores daqueles tempos, que, enumerando os dias da festa, mencionam só o domingo, a páscoa e o pentecostes, p. ex., Tertuliano e Orígenes. Este último até afirma que somente os ímpios, como os Faraós e Herodes, celebravam o dia do seu nascimento. O concílio de Nicéia não faz menção da festa do natal. Eusébio também não fala dela. Arnóbio (por volta de 300, Advers. gentes I c. 34; ML 5 p. 758) ria-se dos pagãos, porque celebravam o nascimento dos deuses. Em tal atmosfera a festa do natal era impossível.

2. Pela primeira vez é mencionada no dia 25 de dezembro no ano de 354 em Roma, no catálogo das festas, chamado: Depositio Martyrum, com a rubrica “VIII Kal. Ianuarü natus Christus in Betleem ludeae.” Mas, há razões suficientes para supor que já no ano de 336 a festa foi celebrada neste dia. De Roma ela se estendeu rapidamente pela Itália, região de Antioquia, Capadócia, Constantinopla, Jerusalém, Egito e Armênia.

276.   3. A data de 25 de dezembro não é o dia natalício de Jesus Cristo, como todos o admitem. Clemente de Alexandria (Strom. I, 145) refere que uns o celebravam no dia 19 ou 20 de abril, outros em 20 de maio; outros preferiam o dia 28 de março ou a festa da epifania. Em Roma foi fixado para o dia 25 de dezembro. Quais fossem as razões de escolher este dia, não as sabemos.

a) Explicação levítica. Alguns autores quiseram aproveitar o s. evangelho, Lc 1, 5-8. Ali se diz que Zacarias era da tribo de Abia. As 24 tribos revezavam-se no serviço do templo numa ordem constante. Partindo, portanto, ou do princípio do serviço sacerdotal no novo templo ou do fim na destruição de Jerusalém e atribuindo á tribo Joiaribe, por certas razões, o primeiro lugar, calcula-se o tempo do nascimento de Nosso Senhor. Mas em vão. Pois todo o cálculo carece de fundamentos sólidos.

b) A explicação simbólica. Foi outrora opinião que Nosso Senhor morreu no dia 25 de março. Conforme o simbolismo dos números deveria também ser concebido no dia 25 de março e por conseguinte nascer no dia 25 de dezembro. Deve-se respeitar a habilidade de combinação do autor. Mas não se entende como uma idéia artificial possa produzir uma lesta litúrgica. Nem a base é sólida.

277.   c) A explicação histórica. Foi indicada já por Petavius (+ 1652), e é sentença comum. Consiste na substituição da festa pagã do sol natural pela festa cristã do Sol divino, Jesus Cristo. A base certa desta explicação é a festa pagã do sol invencível (solis invicti). Atesta-nos esta festa:

a) O calendário de Filócalo do ano 354 com a rubrica: “VIII Kal. Jan. N (atalis) invicti (Solis).”

b) O calendário do astrólogo Antioco do ano c. 200;

c) As festas celebradas no fim do ano pelo imperador Juliano em honra do Sol invictos.

d) Desta festa fala S. Agostinho (s. 190 in Nat. D.), mui provavelmente, dizendo: “Celebremos este dia não como os infiéis por causa deste sol, mas por causa daquele que fez este sol.”

278.   Esta festa pagã, dedicada a Mitras, deus benfazejo, deus da luz, foi substituída pela festa cristã do natal de Nosso Senhor. Conforme a lenda pagã este deus da luz, sol invictos, nasceu à meia noite de 24 para 25 de dezembro, saindo de uma pedra. Foi adorado pelos pastores (circunstância provavelmente tirada do sto. evangelho). Adulto, venceu o touro inimigo, e, por causa disto, era o deus preferido pelos soldados (Dict. Arch. Mitras) e celebrado principalmente pelos imperadores no fim do século III.

O próprio Constantino, ainda pagão, mandou cunhar uma moeda com a inscrição: Soli invicto comiti (Pauly, Mitras), indicando que os imperadores se consideravam como deuses. O culto de Mitras era geral em todo o império romano desde a Inglaterra até à África e à Pérsia, como provam os numerosos santuários de Mitras encontrados nas escavações.

O progresso do cristianismo, o seu triunfo sob o domínio de um imperador cristão era incompatível com o sincretismo cultivado por muitas pessoas até então. Urgia uma decisão. Abolir a festa do sot invictos, que era festa do imperador, era impossível.

Portanto, os cristãos a transformaram numa festa litúrgica, método este que foi também aplicado em outras festas. Ficaram com o dia, eliminaram o Mitras e consagraram a festa ao nascimento de Nosso Senhor, no qual se verificam eminentemente todas as qualidades atraentes, que os pagãos atribuíam ao seu ídolo Mitras. Pois, Jesus Cristo é a verdadeira luz dos crentes, o Sol de justiça, nasceu da Virgem e foi adorado pelos pastores.

279.   Também contribuiu para esta substituição a figura do pequeno Mitras. Um altar pagão achado recentemente em Treves representa o nascimento deste deus da luz. É surpreendente a sua semelhança com o Menino Jesus, como se vê pela comparação da figura de Mitras com o do Menino Jesus, obra moderna. Todas estas circunstâncias lembravam o Menino Deus. As autoridades acharam nisto um estímulo para proceder à mudança, os cristãos, convertidos do paganismo, não tinham dificuldade em aceitá-la. Pois o dia 25 de dezembro conservava-se para o nascimento de Deus, não já de um Deus imaginário, mas do Deus vivo. Assim o dia 25 de dezembro não só não perdeu nada do seu brilho, mas foi enriquecido com nova glória. (Holzmeister, Cronologia, p. 39.)

A festa cristã foi o golpe de morte para Mitras, cujo culto decaiu rapidamente, e um novo triunfo do Menino Jesus, tão combatido pelos idólatras de Mitras. O mérito desta reforma cabe ao Papa Silvestre (314-335). Pois com boa razão se afirma que a festa do natal já existia no ano de 336. (Dict. d’arch. XII p. 912.) Júlio I reinou de 337-352. Por conseguinte não foi ele que introduziu esta festa, mas Silvestre, homem enérgico e reformador da Liturgia.

A lenda de Mitras tem o seu fundamento no solstício do inverno, a partir do qual o sol outra vez se levanta no hemisfério do norte. Chamar isto nascimento também é conforme ao nosso modo de falar: Nasce o sol todos os dias.

280.    4. Privilégios.

1) A recitação solene do martirológio.

2) As três missas já em uso antes do século VI. Têm elas a sua origem em circunstâncias locais de Roma (Braun s. v.) e simbolizam, conforme explicação posterior, o nascimento de Jesus Cristo do Pai, o seu nascimento temporal da Mãe, o nascimento místico nas almas. Por causa das 3 missas (Liturgias) o dia do natal é dia polilitúrgico.

A primeira missa (a “missa do galo” porque é rezada quando o galo canta pela primeira vez) não pode começar antes de meia-noite. Deve ser missa paroquial (cân. 821, § 2), portanto não privada, mas celebrada com assistência dos paroquianos. Nas casas religiosas e pias, um sacerdote pode dizer as três missas (1. c. 3) com as portas abertas a pessoas estranhas, segundo a interpretação de vários autores. (REB, 1942, p. 1002.) Durante (intra missam) todas as missas se pode distribuir a comunhão. (C. B. 224; Pont. C. Cod. 16.III.36.)

A segunda missa antigamente era rezada na igreja de S. Anastácia. Pio V a substituiu por uma missa em honra de Jesus Cristo, mas prescreveu da comemoração da santa.

O sacerdote que diz só uma missa, tome a primeira, se celebra de noite; a segunda, se de manhã; a terceira, se depois de nascer do sol. (d. 3354.)

A missa do galo foi introduzida provavelmente para igualar a festa de natal à solenidade da páscoa com vigília e missa noturna. Talvez influísse o costume de Jerusalém. Não remontará além do séc. IV.

Fonte http://www.derradeirasgracas.com/4.%20CURSO%20DE%20LITURGIA%20-%20Pe.%20Reus/LITURGIA%20-%20PARTE%20III.%20.htm#68.