O DEUS QUE SE ESCONDE

O Deus que se esconde
“Moisés olhava: a sarça ardia, mas não se consumia. “Vou me aproximar, dizia ele consigo, para contemplar este extraordinário espetáculo, e saber por que a sarça não se consome.” Vendo o Senhor que ele se aproximou para ver, chamou-o do meio da sarça: “Moisés, Moisés!” – “Eis-me aqui!” respondeu ele. E Deus: “Não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra santa. Eu sou, ajuntou ele, o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó.” Moisés escondeu o rosto, e não ousava olhar para Deus.” (Ex 3, 2-6)

Vivemos em uma sociedade extremamente ocupada: trabalho, afazeres domésticos, estudos, a busca de informações. E essa vida agitada, todo o barulho exterior, causaram em nós uma dificuldade de nos habituarmos ao silêncio e à quietude. Se estamos em casa, nossa primeira atitude para quebrarmos o silêncio é conversar com alguém, ao mesmo tempo em que ligamos o rádio ou a TV. Hoje, na era da informática, ainda temos a opção de ouvirmos música pelo celular, MP3, Mp4, Ipod, ou pelo computador. E, quando saímos, o barulho do trânsito e as conversas nas ruas nos acompanham. O estilo de vida moderno, se por um lado foi uma evolução social, por outro viciou o homem a viver no barulho e nas ocupações. E, como conseqüência, o homem encontrou maior dificuldade de estar a sós com o Criador.

O episódio da sarça ardente, descrita acima, nos mostra o encontro de Móises com o Deus que se esconde. Observemos que Moíses estava em um monte, o Horeb. E estava realizando o seu trabalho de pastor, cuidando do rebanho de seu sogro, Jetro. Foi quando, por um momento, Moisés deixou o rebanho e aproximou-se da sarça, que ardia, mas não se consumia. E Deus, vendo que ele se aproximara para ver, falou com ele, chamando-o pelo nome.

Assim como Deus se revelou a Moíses na sarça, ele também nos pede que nos aproximemos dele, com nosso coração, a fim de que também ele possa nos falar. A “Montanha de Deus”, o nosso Monte Horeb, é a solidão do Criador, é o silêncio interior de nossa alma. É deixarmos um pouco nossas ocupações, como Moíses que deixou o rebanho por um momento, para nos entretermos com a presença de Deus.

Quando Deus nos pede para vivermos na solidão e no silêncio ele não está pedindo para vivermos isolados do mundo, como os eremitas. Há aqueles que tiveram esse chamado, mas a nós, que fomos chamados a servir a Deus dentro de uma Comunidade Discipular inserida na sociedade, Deus nos pede a solidão interior, que é obtido através do recolhimento em Deus. Eis o que diz São Francisco de Sales, em “Filotéia”, no Capítulo XII:

“Lembra-te, as mais vezes que puderdes durante o dia, da presença de Deus, servindo-te de um dos quatro meios de que tenho te falado. Considera o que Deus fez e o que tu fazes, e verás que Deus tem continuamente os olhos pregados em ti com um amor inefável. Ó meu Deus, hás de exclamar, por que não emprego sempre os olhos para contemplar-vos, assim como vós estais sempre olhando para mim com tanta bondade? Por que pensais tanto em mim, Senhor? E por que eu penso tão raras vezes em vós? Onde é que estamos nós, ó minha alma? A nossa verdadeira habitação é em Deus, e onde é que nos achamos? (…) Lembra-te, Filotéia, de retirar-te muitas vezes à solidão do teu coração, ao passo que as tuas tarefas e conversas o ocupam exteriormente, para estares a sós, com o teu Deus. (…) Recolhe-te, às vezes, à solidão interior do teu coração, e aí, num completo desapego das criaturas, trata dos negócios de salvação e perfeição com Deus, como dois amigos cuidam familiarmente de seus negócios.”

Além da solidão interior, que é, mesmo estando ocupados com nossos afazeres diários, procurarmos pensar em Deus, meditar na vida de Jesus, na grandeza de Deus, em sua bondade para conosco, em seu amor e o mais que o Espírito Santo inspirar, também é necessário para a nossa vida espiritual termos um momento de solidão exterior. Diz São Francisco de Sales, na obra acima anteriormente:

“Tanto procurar como fugir à convivência com os homens são dois extremos censuráveis na devoção, que deve regrar os deveres da vida social. O fugir é um sinal de orgulho e desprezo do próximo e o procurar é fonte de muitas coisas ociosas e inúteis. (…) Além da solidão interior, de que já tenho falado e que deves conservar no meio de todas as conversas, deves amar a solidão exterior, não a ponto de ir procurá-la no deserto, como Santa Maria Egipcíaca, São Paulo, Santo Antão, Santo Arsênio e tantos outros eremitas, mas para que tenhas tempo de estar contigo mesma, quer no teu quarto, quer no teu jardim ou em qualquer outro lugar com mais liberdade, entretendo o coração com boas reflexões ou leituras”.

A solidão exterior nada mais é que nosso momento de estar a sós com Deus, em nossa oração pessoal. É irmos, como Moisés, contemplar o Deus escondido na figura da sarça. Deus se esconde no silêncio do nosso coração, mas para que possamos ouvi-lo é necessário deixarmos tudo de lado, preocupações, pensamentos, todos esses barulhos interiores e até exteriores que nos impedem de nos concentrarmos em Deus, e pensarmos somente Nele. Uma oração popular à Nossa Senhora de Lourdes diz que “ela apareceu no lugar solitário de uma gruta para nos mostrar que é no silêncio e no recolhimento que Deus nos fala e nós falamos com Ele.” Por isso, precisamos habituar nossa alma a estar na presença de Deus, seja na oração pessoal, na leitura na palavra, nas reflexões, leitura da vida dos santos (solidão exterior), seja em nossa solidão interior, com nosso coração recolhido em Deus durante as ocupações do dia a dia, pensando em Deus, mesmo nas conversas com o próximo (pois vivemos em uma sociedade), nos abstendo das conversações inúteis e falando somente o necessário, em nosso trabalho, em nossa família, até em nossa comunidade discipular. Assim, estaremos vivendo em nossa “Clausura Interior”, onde Deus habita, de onde Deus nos chama pelo nome, para nos falar de sua vontade.

Tal como Deus falou a Moisés de sua intenção de libertar o povo de Israel da escravidão do Egito, na clausura interior Deus fala a todos os cristãos de sua intenção de salvar muitas almas, libertando-as do pecado. Atendamos, pois, a este apelo de amor do próprio Deus que nos chama à clausura interior, pois nosso Deus Todo Poderoso, que está no Céu, quis se esconder em nosso coração, em nossa pequenez, e se dá a encontrar a todos aqueles que O buscam.

 
Edilene de Freitas Ferreira
 Professora da Escola de Formação
Fonte:  http://www.cot.org.br/formacoes.php?action=formacao&id=75
 
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