EUGÊNIO JORGE – E TEMPO DE AMAR – EFESIOS 1, 3-10..

setembro 19, 2010

A EXPERIÊNCIA DO PERDÃO GERA A RENOVAÇÃO DO ÍNTIMO

setembro 19, 2010

A EXPERIÊNCIA DO PERDÃO GERA A RENOVAÇÃO DO ÍNTIMO

Na primeira leitura, Moisés aparece como o grande intercessor, perante Deus, pelo povo pecador. Opondo-se a Deus, que estaria disposto a recomeçar nele a história da salvação, ele se torna a garantia da continuidade da ação salvífica de Deus e se solidariza totalmente com o povo; é esta nação, saída do Egito, a portadora da salvação. A intercessão de Moisés prefigura a de Cristo, que se fez solidário com o homem, intercede por nós junto do Pai.

Já na segunda leitura, a primeira carta a Timóteo tem por fim lembrar o bispo de Éfeso o dever de defender a sã doutrina. São Paulo insiste muito nisso, porque sabe que é seu dever, consequência do anúncio do evangelho que lhe foi confiado. Daí a simplicidade com que exalta a sua missão, agora descrita num tom místico. Apresenta-a como uma comunicação de força, um gesto divino de misericórdia, um dom gratuito, um exemplo típico da conduta de Deus para com os pecadores. Tudo isso faz com que São Paulo prorrompa num cântico de louvor, do qual se apropriou a liturgia.

Pode-se dizer que esta é a página do Evangelho que converteu maior número de pecadores. Três parábolas que têm uma mesma conclusão: o convite à alegria ou o cântico de alegria no céu pelo pecador que volta ao caminho do bem. As duas primeiras parábolas, a da ovelha e da moeda, descrevem a solicitude de Deus, que vai à procura do que estava perdido. A terceira, que talvez fosse melhor intitular “a parábola do Pai misericordioso”, põe em relevo a paciência de Deus que não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (Sb 11,23; 12,1; Rm 2,4-5; 2Pd 3,9). Outro tema possível: ver na atitude do filho pródigo o processo de conversão e reabilitação da própria dignidade.

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O amor de Deus para com os homens é tão gratuito que não podemos pretender ter direito a ele; é tão absoluto que jamais podemos dizer que nos falta. O amor humano, ao contrário, é tão limitado e fechado pelo nosso egoísmo, que tão raramente ultrapassa a estrita justiça ou se liberta da severidade moralista, o que faz com que facilmente imaginemos um Deus vingador e uma religião baseada no temor. Quem de nós se lembra de que a “graça” que pedimos a Deus significa “ternura” e “piedade” pelo pecador? Só um estudo atento da Palavra de Deus pode ajudar-nos a tomar consciência do sentido da Sua misericórdia indefectível.

Os judeus usavam o termo hesed para indicar o amor misericordioso de Deus para com o povo. Esse termo indica a benevolência, a solidariedade, o amor mútuo que deve existir entre os membros de uma mesma família ou sociedade, dispostos a ajudar-se entre si com amor e generosidade. Deus manifesta essa benevolência, antes de tudo, escolhendo Israel como seu povo; prescindindo dos seus méritos, estabelece com ele um pacto de fidelidade e amor.

A correspondência de Israel ao amor de Deus, que não é grande mas existe, é identificada com o termo hesed que, nesse caso, significa reconhecimento, amor filial, fidelidade. Entretanto, mesmo quando Israel não observa a aliança, Deus permanece fiel e perdoa, exercendo sempre a hesed, a bondade misericordiosa. Por essa bondade misericordiosa, o povo, embora pecador e infiel sempre poderá esperar pelo auxílio divino.

Assim a bondade passa a ser a ternura e a piedade que Deus tem pelo pecador, enquanto lhe oferece a salvação tirando-a do próprio pecado e lhe dá continuamente novos meios, cada vez mais eficazes, para triunfar do mal e corresponder finalmente às exigências da aliança.

Desse modo, a bondade se torna misericórdia para com o pecador. A religião do homem não se baseia mais num título de justiça, mas unicamente na caridade de Deus. São Lucas, o evangelista da ternura divina, multiplica as narrativas que mostram Jesus em busca dos mais abandonados, dos pobres, dos pecadores, realçando assim o próprio fundamento da nossa religião, que é a atitude dos que são arrebatados pelo abismo do amor de Deus.

Não tem necessidade de ser perdoado quem não tem consciência de ter traído alguém que ama! Mas o homem de hoje se sente ainda amado? Na sociedade contemporânea há uma difusa sensação de inquietude, devida ao caráter impessoal da nossa civilização. Estamos na era dos grandes aglomerados urbanos, em contato com a multidão em toda parte: nos meios de transporte, nas fábricas, no cinema, nas praias… O homem está sempre ao lado de outros homens, mas a poucos pode “chamar pelo nome”. Toma-se frequentemente como símbolo da nossa civilização os congestionamentos de trânsito em nossas cidades ou estradas. Há uma multidão, mas cada um se acha fechado em seu carro, com seu cansaço, sua desilusão muitas vezes com sua angústia. É grande o número dos que não são amados por ninguém, para os quais não se tem um olhar a não ser com referência à sua efic iência econômica. Muitas pessoas sabem que quando não forem mais “úteis”, ninguém mais se interessará por elas. No entanto, só pode ser feliz quem é reconhecido, estimado, apreciado, sobretudo amado. Não existe verdadeira “experiência humana” sem intercâmbio, diálogo, confidência, verdadeiro amor recíproco. Só o amor é capaz de transformar, mas com uma condição: que seja gratuito e livre!

Cristo nos revelou um Deus como desejamos. Um Deus que é amor e misericórdia. É uma pessoa que dificilmente encontra lugar em nossa sociedade, e essa, por isso mesmo, tem dele necessidade vital. Aparentemente não serve, não é útil, não produz, não entra no jogo da inflação; mas nos dá tudo, dá-nos o que nenhuma análise científica nem progresso tecnológico nem o desenvolvimento das ciências humanas jamais poderão nos dar: que nos sintamos amados individualmente, um por um, de modo absoluto. Quando percebemos que Deus nos ama assim, então sentimos que estar longe d’Ele e dos outros por razões humanas é perder tempo, e perder Deus. Então nasce espontaneamente a necessidade de pedir perdão. T

frei Cleiton Robson, OFMConv.
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Colunista
Frei Cleiton Robson Leitor instituído; estudante do curso de Teologia (3º ano), no ISB-DF; Licenciado em Filosofia (UCB); Bacharel em violão clássico (EMB) e teoria musical. –> Leia todos os textos deste autor18/09/2010 – A riqueza é para construir a fraternidade!12/09/2010 – A experiência do perdão gera a renovação do íntimo!04/09/2010 – Opção de Fé, opção radical!29/08/2010 – No último lugar, para servir!22/08/2010 – A salvação é o encontro entre o esforço humano e o dom de Deus!01/05/2010 – A Igreja: “a Nova Jerusalém”, gerada no Amor!18/04/2010 – 3º Domingo da Páscoa, ano C – Liturgia do Céu e da Terra
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