PADRE PAULO RICARDO: O PREÇO DE SER CRISTÃO

novembro 28, 2018

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QUE PECADOS PODEM MATAR A FÉ?

novembro 28, 2018

QUE PECADOS PODEM MATAR A FÉ?

 

O mais grave dos pecados contra a fé é a infidelidade

Vimos, no artigo anterior, que a Virtude da Fé é chamada de Teologal por se orientar a Deus e ser dado por Ele para o ser humano. Embora essa virtude seja dada em semente por Deus, é dever do homem permanecer unido a Deus e trabalhar pelo seu crescimento. Desse modo, a fé cresce do perfeito para o imperfeito, ou seja, pelo estímulo de Deus para o ser humano e do imperfeito para o perfeito, isto é, do esforço do homem para chegar a Deus. No entanto, embora Deus dê a fé gratuitamente, o ser humano pode negá-la em si mesmo e, até mesmo, destruí-la. Como aquilo que se opõe a Deus é o pecado, quais são os pecados que destroem a fé?

Que pecados podem matar a fé?

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

O mais grave pecado contra a fé é a infidelidade (ST II-II Q10A3). Por ele o homem voluntariamente resiste a fé, não querendo recebê-la, crescer nela ou a distorce. Assim, aquele que procura não conhecer melhor a fé professada pela Igreja, com medo de ser cobrado por esse conhecimento em alusão à palavra “a quem muito for dado, muito será cobrado” (Lc 12,48), peca contra a fé. Essa infidelidade é uma cegueira voluntária, que corrompe e destrói a virtude da fé. A fé deve ser estimulada a crescer e não ser combatida ou cerceada.

Heresia e a apostasia

Dentre os modos do pecado da infidelidade estão a heresia e a apostasia. A heresia, que vem do grego “eleição”, tem esse nome porque o herege escolhe ou elege a doutrina que julga ser melhor ou mais adequada para si mesmo. Nega-se, assim, que existe uma doutrina verdadeira que deve ser seguida e defendida, não importando a opinião pessoal que tem-se sobre ela. A partir do momento que se arbitra sobre o que se deve ou se quer crer, escolhendo no que acreditar e no que não acreditar da fé ensinada pela Igreja, adota-se a postura do herege e se destrói a fé. Aquele que já ouviu a expressão: “- Sou católico, mas não concordo com isso e aquilo que a Igreja diz”, conheceu um herege de perto. Pode ser um herege que não entrará para os livros de história mas, fatalmente, destruirá a própria fé (e de quem der ouvidos às suas “opiniões” ou “eleições”).

A apostasia, por outro lado, é uma forma de infidelidade de quem se afasta completamente da fé em Deus (ST II-II Q12A1). Aquele que teve uma formação católica, foi introduzido nos sacramentos e abandona a Igreja e a fé, é um apóstata. A consequência da apostasia é a morte da fé de um modo mais rápido e eficaz do que a heresia, pois, essa ainda procura conservar alguma coisa da fé, embora a distorça. O apóstata, no entanto, tem como objetivo (e consegue) destruir a própria fé.

Como a fé exige um aplicar-se, conscientemente, no aprendizado das coisas de Deus para se desenvolver, a cegueira ou embotamento da mente é outro vício que destrói a fé. Ou seja, aquele que se aplica a entender, usufruir e aperfeiçoar-se nas coisas terrestres ou materiais, deixando de lado o aprendizado da fé, comete um erro que mata a sua fé. Afinal, acumular títulos acadêmicos após décadas de estudo e permanecer no “jardim de infância” da fé é uma distorção intelectual extraordinária. O conhecimento e aprofundamento em relação à fé tem de caminhar no mesmo tom e qualidade dos outros aprendizados intelectuais. Quando, por negligência, deixa-se de se aprender e aprofundar as verdades de fé, cria-se o pecado da cegueira intelectual que faz a fé ficar débil até morrer.

Entre os inúmeros dons recebidos de Deus, a inteligência é um dos maiores

Por outro lado, o embotamento da mente, causado por uma falta de vivência intelectual em qualquer área, não é menos danoso ou menos problemático. Se aquele que desenvolve toda sua capacidade intelectual em várias áreas, menos no conhecimento da fé, peca; aquele que não desenvolve, também, peca. Entre os inúmeros dons recebidos de Deus, a inteligência é um dos maiores. Ela nos dá a capacidade de ver e compreender o mundo, além de receber e entender a revelação de Deus que contém as verdades de fé. Aquele que embota (debilita, insensibiliza) a sua própria inteligência, não só destrói suas capacidades de viver melhor em sociedade como, também, se priva de aprender a revelação de Deus.

Procurando corrigir-se desses erros voluntários, isto é, os pecados; e dos involuntários, que são os vícios adquiridos por maus hábitos, conseguimos preservar a fé dada, gratuitamente, por Deus. Mas, como se pode aumentar a nossa fé? No próximo artigo nos deteremos nos passos que podemos dar, conscientemente, para aumentar a nossa virtude da fé.

 

Flávio Crepaldi

Flavio Crepaldi é casado e pai de 3 filhas. Especialista em Gestão Estratégica de Negócios,graduado em Produção Publicitária e com formação em Artes Cênicas. É colaborador na TV Canção Nova desde 2006 e atualmente cursa uma nova graduação em Teologia com ênfase em Doutrina Católica.

Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/que-pecados-podem-matar-fe/

 


PADRE PAULO RICARDO: COMO VIVER O DESAPEGO?

novembro 26, 2018


A TARTARUGA

novembro 26, 2018

A TARTARUGA

Todos os dias o percurso era o mesmo. Taru deixava o mar e seus mistérios e, na calada da noite, deslizava lentamente pela areia batida da praia, até ao amanhecer, quando a maré alta a envolvia no carinho de suas ondas mornas, e como se carrega uma criança nos braços, a deitava cheia de ternura no doce leito do mar.

Taru era imponente. Nos seus cento e cinqüenta quilos, cheia de força e vigor, desafiava constantemente as intempéries do mar e os dissabores do tempo, além de se arvorar contra os muitos predadores que porventura dela se aproximassem.

As marcas de suas patas, como impressões digitais verdadeiras, deixavam-se fixar na areia, à semelhança de um grande outdoor horizontal que estampasse este aviso: Taru passou por aqui! Era vaidosa. Nunca fora vencida nem se deixara vencer. À medida que cada vitória sucedia, a sua medida de vaidade multiplicava-se, deixando-a cada vez mais presunçosa e cheia de orgulho. A autossuficiência impedia-lhe de ver o mundo ao seu redor. Meneando a cabeça, ora para cima, contemplando o céu bordado de estrelas; ora para baixo, vislumbrando os bilhões de grãos de areia que compunham aquela paisagem serena; ora retraindo a cabeça para dentro de si, num gesto puramente instintivo de defesa contra as rajadas de vento que a incomodavam sobremaneira, Taru sentia-se absoluta.

A noite fora tranqüila. Mal os primeiros raios da manhã saudavam o novo dia, ela esperava ansiosa a chegada da maré cheia. As ondas espraiavam-se cada vez mais perto. Ofegante, exausta, arrastando-se lentamente, mas feliz por não ter sido vencida mais uma vez, não percebe uma onda gigante que, tomando-a de surpresa, lança-a há alguns metros de distância, onde cai desacordada e só.

O sol já ia alto quando Taru se deu conta de que estava de patas para o ar. Tentou desvirar-se uma, duas, três… inumeráveis vezes. Nada. O dia findara, outra noite chegara, e ela ali, sozinha, vendo o céu de cabeça para baixo e o mar longínquo que não reparava na sua dor.

A areia quente, de uma temperatura insuportável, levava-a a exaustão.

Ao final do terceiro dia, quando as primeiras estrelas saudavam a noite que nascia mansamente, e já sem esperança alguma, Taru ouve passos que vêm em sua direção. É inacreditável! Agita-se. Se pudesse gritar… O pescador se aproxima, pára, fixa seu olhar, move a cabeça para a direita e para a esquerda, como quem diz: “Pobrezinha!…” E reunindo suas forças, socorre e salva Taru.

Já deslizando nas águas do mar e gozando das delícias do seu habitat natural, Taru pôde refletir e compreender: “Ninguém se basta a si mesmo. Nem eu“.

Paz e Luz

Antonio Luiz Macêdo

Fonte: http://catequesecatolica.com.br/site/a-tartaruga/

 


ESTOU GRÁVIDA. E AGORA?

novembro 25, 2018

ESTOU GRÁVIDA. E AGORA?

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infinita sabedoria de Deus concede ao corpo feminino a capacidade de conceber e também uma grande quantidade de hormônios para que esteja apto a abrigar e manter o desenvolvimento desta nova vida. Esses hormônios são os principais responsáveis pela diversidade de emoções que uma gestante experimenta. É por isso que nós, mães, começamos a imaginar como será “do ‘positivo’ em diante”, e mesmo que este bebê tenha sido esperado para aquele momento, todas, em maior ou menor grau, temos medos e preocupações comuns que, se não forem bem direcionados, podem tornar a gestação difícil. Vamos ver alguns deles?

Insegurança com as mudanças na vida – Rotina, hábitos, espaços – em casa ou no trabalho – adequações às novas necessidades; mudanças no corpo, mentalidade, prioridades. Tudo isso faz gerar inseguranças, ou a quebra de falsas seguranças: que dificuldades encontrarei no meu trabalho? Como serei vista pelo meu esposo? A gravidez interferirá no nosso relacionamento conjugal?

Lembre-se: gravidez não é doença, é um estado de atenção, mas natural! Pode ser que seja difícil em alguns momentos, mas a gestante, como qualquer ser humano no âmbito profissional, deve ser tratada como pessoa e não como uma máquina, e ser respeitada nesta condição. Há situações de saúde que podem exigir repouso e afastamento do trabalho. Você não deve se culpar nem se desesperar se isso ocorrer, pois há leis que lhe garantem cobertura neste tempo para que você se dedique aos cuidados necessários.

Sobre seu esposo: assim como para o trabalho você não é uma máquina, para ele – e para você mesma – você não é apenas o corpo, mas uma pessoa que, com toda a sua história de vida, virtudes, defeitos e demais características, é única e irrepetível, e por isso ele a escolheu para trilharem a jornada da vida juntos. Mudanças fazem parte deste caminhar e a clareza do sentido matrimonial os ajudará a viver esta fase com compreensão e alegria.

A saúde do bebê – Desde o ventre, você já estará preocupada com o que comer e beber ou não, e o quanto alguma deficiência de saúde pode afetar o seu bebê. Neste momento, o envolvimento do esposo nos cuidados com a gestação se torna muito importante, tanto como suporte para você, quanto como para fomentar o diálogo e a partilha dos dois. Assim, juntos, decidem os cuidados a tomar e a “listinha” de perguntas a serem feitas ao obstetra. Se há outros filhos, eles também já devem ser “treinados” a cuidarem do irmãozinho desde já, na medida da sua compreensão e possibilidades. Outros membros da família também são importantes nesse apoio, desde que respeitem limites e decisões próprias e exclusivas do casal.

O parto – É o medo principal, seja das mamães de primeira viagem ou das mais experientes. Independentemente dos motivos, talvez as coisas não sejam exatamente como se sonhou. Mas nossa condição feminina nos garante que “dar à luz faz parte da nossa natureza” e esta é a primeira afirmação que você deve repetir ao se deparar com este medo. Cuide-se bem e se prepare para este grande momento. O que vier a mudar dos seus planos será para que tudo transcorra bem e você esteja com seu bebezinho nos braços da forma mais segura possível. Você é capaz!

Há outros medos, como por exemplo, quando a gravidez ocorre num momento de instabilidade familiar ou até mesmo fora deste ambiente. Independente do contexto, é importante frisar que todos nós que temos uma gestante próxima, temos a responsabilidade – familiar e social – de ampará-la e encorajá-la a viver este momento da maneira mais natural possível. Certos comentários devem ser abolidos de nossos diálogos e pensamento, se não condizem com nossa missão de defensores da vida.

O Catecismo nos diz o seguinte: “chamados a dar a vida, os esposos participam do poder criador e da paternidade de Deus.” (nº 2367). Então, se você está grávida, meus parabéns! Deus a chamou a participar da criação com Ele. Tranquilize-se, informe-se, cuide-se e confie-se aos cuidados maternais da Virgem Maria que, sem ter planejado, recebeu a Salvação de todos nós em Seu ventre sagrado!

Nossa Senhora do Bom Parto, rogai por nós!

Michelle de Oliveira Ferreira
Membro do Movimento de Vida Cristã – MVC
Instrutora do Método de Ovulação Billings®
Pela CenplafamWoomb Brasil

Fonte: https://www.a12.com/redacaoa12/espiritualidade/estou-gravida-e-agora


THIAGO BRADO: QUANDO A GENTE NÃO MERECE É QUANDO A GENTE MAIS PRECISA

novembro 21, 2018


A EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL E A ATENÇÃO AO MINISTÉRIO DE DEUS

novembro 21, 2018

A EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL E A ATENÇÃO AO MINISTÉRIO DE DEUS

 

Certo é que todos os homens, de todos os tempos e lugares fizeram e fazem a experiência do transcendental. Ele é um ser aberto ao totalmente Outro, o qual é realidade ao mesmo tempo externa a este mundo, e interna ao homem. Há uma vivência fundadora do pensamento religioso no ser humano, sem intermédio de uma ordem externa, confessional, ou teológica.

Em termos psicológicos, a experiência religiosa é, desde sempre, uma dimensão intrínseca de nosso psiquismo, isto é, da alma humana na medida em que ela experimenta uma realidade sagrada, ou seja, uma comoção perturbadora que funda a realidade como sagrada. Tais realidades humanas, sejam as boas e aprazíveis, mas principalmente as mais difíceis, como as tragédias e a morte de um membro da família, são carregadas de sacralidade, da presença de Deus.

Em meio a um mundo confuso, onde as experiências interiores não são mais valorizadas, encontra-se um ser humano fragmentado em busca de um sentido para a vida, para a sua própria existência e a do mundo a sua volta. Ainda que traga os traços do criador, e sua alma clame por uma realidade superior que o oriente e sirva de sentido, o homem moderno traz uma desconfiança a respeito do divino e da possibilidade de fazer uma verdadeira experiência de Deus e das coisas sagradas. Para muitas religiões e pensamentos religiosos, tal encontro só é possível por mediações religiosas, interseccionado por ritos e representantes religiosos. Esta realidade não é ilegítima ou descabida, no entanto é momento segundo no processo de experiência espiritual.

O conceito de experiência espiritual de K. Rahner nos conduz para uma realidade transcendental que se deixa entrever no concreto da vida cotidiana de todo homem. Talvez a consciência religiosa coletiva não consiga abarcar, com facilidade, a possibilidade de uma experiência direta de Deus por causa de centenas de anos de catequese puramente sacramental e institucional. Rahner não nega a religião ou religiosidade como caminho, mas em sua teologia espiritual, acena para uma realidade primordial, a da categoria da experiência imediata, a qual o homem comum, sem ser um místico aos moldes de Francisco e Tereza, faz nas coisas mais triviais do seu dia. Se é verdade que todo homem é aberto ao mistério sagrado e absoluto de Deus, então deve haver um instrumental pré-existente nele, não externo, que o possibilite ter acesso às realidades espirituais.

Neste ponto para Kal Rahner a chave de leitura são os dramas e perguntas mais profundas da pessoa, através de sua inteligência e livre vontade. Trata-se de uma mística ou espiritualidade encarnada, uma mística “natural”, na qual o mundo ao redor e, sobretudo, o mundo interior, gritam a presença e a ação de Deus. Seja o nome que for: graça, inabitação, efusão, êxtase, etc. o que realmente ocorre com todas as pessoas é uma experiência do mistério do infinito que há nele; ele sabe que as respostas últimas e soluções para as crises não é ele, mas Outro.

Com a experiência de autotranscendência, o ser humano necessariamente se abre a Deus e busca Nele nutrir-se. Deus se oferta a alma humana e se faz a ela presente. Ao perceber tal presença em sua vida, o homem faz experiência da graça divina que se antecipou a ele, possibilitando a abertura e docilidade interiores. E é exatamente aqui que se problematiza a questão da experiência divina. Parece que necessária e absolutamente o indivíduo só pode fazer experiência mediada de Deus, ou seja, através de alguém ou alguma coisa. Ora, nossa pastoral tem tido práticas que reforçam essa inverdade.

Temos inculcado em nossos fiéis a necessidade de ter algum ministro para rezar por ele, ou para conduzir um momento de oração, quando na verdade ele mesmo é capaz de orar e num diálogo afetuoso com o Pai do céu descobrir os tesouros celestes. Ou ainda a prática de novenas e instrumentalização da fé, como promessas e orações “sentimentais” feitas em ambientes pentecostais, as quais levam a uma experiência falsa, ou senão, opaca de Deus.

Nossa pastoral deve dar mais autonomia ao fiel cristão que busca fazer uma experiência de Deus. Devemos possibilitar que se tenha mais atenção ao mistério que nos envolve e perpassa, liberando essa ruim conjunção de experiência de fé com as práticas religiosas institucionalizadas. Não que a igreja e sua doutrina sejam desnecessárias, mas que a pastoral faça cada um perceber seus próprios caminhos, ou seja, as vias pessoais pelas quais Deus fala ao indivíduo de modo único e particular. É preciso educar para a mística.

Que a religião cumpra seu papel de religar a Deus e não ser o fim último como tem ocorrido em nossas instituições. Precisamos reeducar o nosso povo a ter olhos espirituais que vejam as pegadas, os traços de Deus em sua própria história de vida. O perigo que se corre nesse ultrapassado modelo pastoral é manter-nos num emaranhado de relações meramente humanas nas igrejas, sem profundidade e com uma sempre maior alienação; alienados de nós mesmos, alienados dos outros e lamentavelmente, alienados de Deus. Com a instrumentalização religiosa, o crente ficou preso às experiências de outros, que não a dele mesma, e às dos irmãos de fé. É mais uma religião social que espiritual, no sentido de mística, ligada ao transcendente.

De fato, a prática religiosa é a linguagem concreta pela qual tentamos expressar aquela experiência íntima que fizemos de Deus. No entanto, precisamos encontrar tempo para a interioridade, para o silêncio, para um encontro tranquilo e amoroso com a causa fundante de nossa existência. Posso ir à missa, posso rezar o terço e as novenas, mas elas são tão somente formas de externar o que vai no meu interior, o que foi fecundado e colhido pelo Espírito de Deus em mim. Se nossa prática pastoral inverte os momentos, gera-se uma imagem confusa de Deus e se sombreia a religião.

Fomentar a vida interior, ou vida espiritual é consagra-se a ser investigador do mundo, tanto o exterior quanto o interior, e com o auxílio da luneta da fé encontrar o amor profundo e incondicional de Deus. É conseguir enxergar em nós e no mundo a presença velada e revelada de Deus que sempre nos atrai e se apresenta maior que nós, maior que o mundo.

Essa experiência espiritual se dá, na prática, quando, por exemplo, olhamos com os olhos de Deus a senhorinha quase cega que lhe visita por simplesmente se sentir bem em sua casa; ali ela faz experiência da acolhida e nós a de hóspedes do próprio Deus que nos revela a fragilidade e doçura de seu coração. Ou então, quando todos se voltam contra você e em momento de vulnerabilidade, alguém lhe lança um olhar compassivo, lhe acolhe e diz: estou contigo, nunca se esqueça disto! Aquele abraço forte lhe dá, ainda que sem palavras, garantias que tudo está bem, que Deus não te condena mesmo quando todos teriam razões para isso.

Quanto mais criamos a capacidade de ver a manifestação de Deus nas realidades intramundanas, mais é diminuída a dicotomia sagrado x profano. O sagrado e o profano constituem dois modos de ser no mundo, duas situações assumidas ao longo da história religiosa.

O homem toma consciência do sagrado porque este se manifesta, como outra coisa absolutamente diferente do profano, do usual, do cotidiano. Qualquer ação com um significado vital, como nascimento e morte, fome e alimentação, plantio e colheita, etc. participa de certo modo do mundo sagrado, ou seja, é vital porque é parte do sagrado, vem de um Outro.  Exemplo primordial para nós cristãos é a encarnação do Verbo, no qual se encontram harmoniosamente integradas as duas categorias, a sagrada ou divina e a humana, ou profana.

A partir da humanização do Verbo divino, nenhuma coisa ou pessoa lhe escapa, pois, em si, já fazem parte do sagrado, porque foram assumidas como realidades espirituais no ‘coração’ de Deus. Jesus Cristo é a manifestação da integração perfeita das realidades terrestres e espirituais, e mostra que não são dicotômicas entre si, mas locais da manifestação de Deus. Portanto, toda ação é sagrada, pois a vida vem Dele e para Ele há de voltar. Encontrando-se, o ser humano encontra a Deus. Amando o outro, a Deus ele está a amar. Assim descobrimos que viver é sagrado, e quanto mais vivemos, integrando-nos no mundo, mais encontraremos rastros do sagrado que nele habita. No fim de tudo só Ele restará!

Autor: Prof. VICTOR HUGO NASCIMENTO
Filósofo e Teólogo.
Professor das Escolas de fé e catequese Luz e Vida e Mater Ecclesiae – RJ
Contato: victorbento.30@globomail.com

Fonte: http://www.catequisar.com.br/texto/colunas/victor/015.htm